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| Novo programa Desenrola Fies permite renegociação com descontos que podem chegar a 99% para estudantes em situação de vulnerabilidade social (Foto: Samuel Pinheiro/Revista Cariri) |
O Ceará possui atualmente 141,8 mil contratos ativos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Desse total, mais de 74 mil estão inadimplentes há mais de três meses, o equivalente a 52,2% dos contratos em vigor no estado. As dívidas acumuladas somam cerca de R$ 1,2 bilhão, conforme dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
Todos esses débitos podem ser renegociados por meio do Desenrola Fies, programa lançado pelo Governo Federal para facilitar a regularização financeira de estudantes com pendências no financiamento estudantil.
Segundo o MEC, a iniciativa busca reduzir a inadimplência e permitir que ex-alunos retomem sua capacidade de crédito.
Programa oferece descontos e parcelamentos
O Desenrola Fies contempla estudantes com dívidas vencidas e não pagas até a publicação da Medida Provisória nº 1.355/2026.
As condições variam conforme o tempo de atraso e o perfil socioeconômico do estudante.
Dívidas vencidas há mais de 90 dias
Os estudantes poderão optar por:
- Pagamento à vista, com desconto total de juros e multas e abatimento de até 12% no valor principal da dívida;
- Parcelamento em até 150 vezes, com perdão total de juros e multas.
Dívidas vencidas há mais de 360 dias
Para estudantes em geral, o programa permite desconto de até 77% do valor consolidado da dívida.
Já os estudantes inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) poderão obter abatimento de até 99% do saldo total devido.
O prazo para renegociação será de 90 dias, seguindo até o início de agosto. Os interessados deverão procurar diretamente o banco responsável pelo contrato do financiamento.
Economistas avaliam impacto da inadimplência
Para o economista Ricardo Coimbra, especialista em mercado financeiro e crédito estudantil, o alto índice de inadimplência revela dificuldades estruturais enfrentadas pelos recém-formados.
“O estudante conclui a graduação e encontra um mercado de trabalho ainda instável, muitas vezes com salários abaixo do esperado para a área de formação. Isso faz com que outras despesas essenciais sejam priorizadas antes do pagamento do financiamento”, explicou ao Revista Cariri.
Segundo ele, a renegociação pode ajudar a reduzir o comprometimento financeiro de milhares de famílias cearenses.
“A possibilidade de descontos elevados e parcelamentos mais longos cria uma oportunidade concreta para regularização, principalmente para quem já havia perdido completamente a capacidade de pagamento”, afirmou.
Já a economista Luciana Albuquerque avalia que o problema também está ligado à necessidade de maior alinhamento entre oferta de cursos e demanda do mercado de trabalho.
“É necessário incentivar cursos estratégicos e fortalecer áreas com maior absorção profissional. Quanto maior a empregabilidade e a renda média do egresso, maior também será a capacidade de quitar o financiamento”, destacou.
Ela ressalta ainda que programas como o Fies continuam sendo fundamentais para ampliar o acesso ao ensino superior privado.
“O financiamento estudantil ainda é uma das principais portas de entrada para jovens de baixa renda chegarem à universidade”, completou.
Fies foi criado em 1999
O Fundo de Financiamento Estudantil foi criado em 1999, durante o segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e passou por expansão em 2010, no fim do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O programa funciona como uma espécie de empréstimo estudantil para alunos matriculados em instituições privadas de ensino superior.
Após a conclusão do curso, o estudante inicia o pagamento do financiamento.
Quem pode participar do Fies
Entre os requisitos exigidos para adesão ao programa estão:
- Ter realizado o Enem a partir de 2010;
- Média mínima de 450 pontos;
- Não ter zerado a redação;
- Não ter participado como treineiro;
- Possuir renda familiar de até três salários mínimos por pessoa.
Metade das vagas do programa é reservada ao Fies Social, modalidade destinada a estudantes com renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa e inscrição ativa no CadÚnico.
Nesses casos, o financiamento pode cobrir até 100% dos encargos educacionais.
Ceará também enfrenta alta inadimplência geral
O percentual de inadimplência do Fies no Ceará é próximo ao índice geral de consumidores negativados no estado.
Dados do Serasa Experian apontam que o Ceará encerrou março de 2026 com 3,76 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a 53,27% da população adulta.
Enquanto o Desenrola Fies é voltado exclusivamente às dívidas do financiamento estudantil, o Desenrola 2.0, lançado na última segunda-feira (4), contempla apenas parte das dívidas financeiras da população.
Contas de água, luz e telefone, por exemplo, ficaram fora do programa nacional de renegociação.
Mesmo assim, cerca de 48,8% das dívidas existentes no Ceará podem ser renegociadas por meio do Desenrola 2.0 junto a bancos e instituições financeiras.
Por Heloísa Mendelshon

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