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| Desabastecimento de medicamento essencial impacta terapias e preocupa especialistas em todo o país (Foto: Samuel Pinheiro/Revista Cariri) |
Um medicamento antigo, acessível e considerado essencial no tratamento de câncer e doenças autoimunes graves começou a faltar no Brasil, forçando médicos a reestruturar protocolos terapêuticos em tempo real. A ciclofosfamida endovenosa, utilizada há décadas na oncologia e na reumatologia, enfrenta desabastecimento em todo o país.
A escassez afeta desde esquemas clássicos de quimioterapia, como os usados no câncer de mama, até tratamentos de doenças como lúpus, vasculites e procedimentos de transplante de medula óssea.
Enquanto o Ministério da Saúde busca recompor estoques com compras emergenciais, entidades médicas alertam que, embora existam alternativas, nem sempre elas são equivalentes — e, em alguns casos, não há substitutos ideais.
🧬 Medicamento antigo, mas indispensável
A ciclofosfamida pertence ao grupo dos agentes alquilantes, medicamentos que atuam danificando o DNA das células, especialmente aquelas que se multiplicam rapidamente, como células tumorais ou do sistema imunológico.
Mesmo sendo um fármaco desenvolvido há décadas, ele segue como peça-chave em protocolos considerados padrão.
Na oncologia, é amplamente utilizado no tratamento de câncer de mama, tumores pediátricos e doenças hematológicas. Já na reumatologia, é fundamental em casos graves, como lúpus com comprometimento renal ou neurológico e vasculites sistêmicas.
O oncologista Ricardo Menezes destaca a gravidade da situação:
“Estamos falando de um medicamento clássico, testado e altamente eficaz. A falta da ciclofosfamida não é apenas um problema logístico — ela impacta diretamente a chance de sucesso do tratamento em diversos casos.”
⚠️ Impactos imediatos no tratamento
Com a ausência da versão intravenosa, médicos têm recorrido a adaptações possíveis, mas nem sempre ideais.
Entre as estratégias adotadas estão:
🔄 Substituição pela forma oral, disponível no país
🧪 Uso de protocolos alternativos sem a droga
⏳ Reorganização da ordem dos tratamentos
Essas soluções, no entanto, apresentam limitações e podem não ser aplicáveis a todos os pacientes.
Ao Revista Cariri, a oncologista Mariana Albuquerque ressalta os desafios clínicos:
“Nem todos os protocolos são equivalentes. Em alguns casos, conseguimos adaptar com segurança, mas em outros existe risco real de perda de eficácia ou aumento de toxicidade. Cada decisão precisa ser cuidadosamente individualizada.”
📊 Adaptação de protocolos
Sociedades médicas passaram a emitir orientações emergenciais para guiar os profissionais durante o período de escassez.
No câncer de mama, por exemplo, uma das alternativas é iniciar etapas do tratamento que não dependem da ciclofosfamida, adiando seu uso até a normalização do estoque.
Também é possível utilizar versões orais em esquemas como:
💊 CMF (ciclofosfamida, metotrexato e fluorouracil)
💉 CAF (ciclofosfamida, doxorrubicina e fluorouracil)
Em alguns casos, outras drogas podem substituir a ciclofosfamida, como a carboplatina, especialmente em tumores mais agressivos, como o câncer de mama triplo-negativo.
Nos quadros mais sensíveis — como tumores pediátricos, transplantes e doenças hematológicas — a recomendação é priorizar o uso dos estoques disponíveis, já que não há substitutos plenamente equivalentes.
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| A ciclofosfamida endovenosa, usada há décadas na oncologia e na reumatologia, está em desabastecimento no Brasil (Foto: Reprodução/Baxter) |
🧠 Impacto também na reumatologia
Na reumatologia, o cenário é ainda mais delicado. A ciclofosfamida é essencial em terapias de indução de remissão em doenças graves.
Entre as alternativas possíveis estão:
💊 Micofenolato mofetil (para lúpus)
🧬 Rituximabe (para vasculites)
⚖️ Imunossupressores como azatioprina, tacrolimo e ciclosporina
Ainda assim, especialistas alertam que essas substituições exigem avaliação individualizada e podem trazer riscos se não forem bem indicadas.
🌍 Escassez global de medicamentos antigos
O desabastecimento da ciclofosfamida não é um caso isolado. Ele faz parte de um fenômeno mais amplo: a escassez de medicamentos antigos, de baixo custo e fora de patente.
Esses fármacos possuem poucos fabricantes no mundo, o que torna a cadeia produtiva mais vulnerável a falhas, como problemas técnicos ou dificuldades no fornecimento de matéria-prima.
A farmacêutica responsável pelo medicamento no Brasil informou que a falta está relacionada a uma interrupção técnica em uma fábrica parceira. A produção já foi retomada, mas ainda opera com capacidade reduzida.
🏥 Governo busca soluções emergenciais
Diante da situação, o Ministério da Saúde realizou a compra emergencial de:
📦 140 mil comprimidos
💉 80 mil frascos-ampola
A distribuição será feita para centros de referência em todo o país.
Além disso, o governo solicitou à Anvisa prioridade na análise de processos para ampliar a oferta, incluindo importações excepcionais e liberação acelerada de novos lotes.
A expectativa oficial é que o abastecimento comece a ser normalizado a partir de junho, com melhora gradual ao longo de 2026.
Por Marcelo Lemme


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