Boletim da Sesa revela aumento de óbitos no Estado e destaca vulnerabilidade social como fator determinante (Foto: Drazen Zigic/Freepik)

Um levantamento recente da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) traçou o perfil das mortes por câncer no estado e revelou um cenário preocupante: idosos, pessoas de cor parda e com baixa escolaridade são os mais afetados. O estudo também aponta crescimento no número de óbitos ao longo dos últimos anos, com destaque para o aumento entre mulheres mais jovens.

Os dados, divulgados no início do mês, consideram registros entre 2016 e parte de 2025 e foram apresentados na semana do Dia Mundial de Combate ao Câncer. O documento detalha as mortes por faixa etária, raça, sexo e nível de instrução, além de indicar os tipos de câncer mais letais no Ceará.

🧓 Idosos concentram maior número de mortes
Segundo o levantamento, a maioria das mortes ocorre entre pessoas com mais de 60 anos, especialmente na faixa dos 70 aos 79 anos. O envelhecimento é apontado como um fator importante para o desenvolvimento de tumores e para o agravamento dos casos.

O oncologista da Sesa, Jader Sabino, reforça que o cenário vai além de questões biológicas.

“Os dados mostram um perfil marcado por desigualdades sociais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde, não sendo apenas uma questão biológica”, afirmou, acrescentando que o Estado tem trabalhado para ampliar e descentralizar o atendimento.

Ele também destacou os desafios no tratamento de pacientes mais velhos: “O tratamento em idosos costuma ser mais complexo, porque eles geralmente apresentam outras doenças associadas, têm maior fragilidade física e, muitas vezes, recebem o diagnóstico em estágio mais avançado”, explicou.

📚 Baixa escolaridade influencia diagnóstico tardio
O boletim evidencia ainda um forte recorte social: cerca de 32% das vítimas tinham apenas o Ensino Fundamental I, enquanto 25,3% não possuíam escolaridade.

Para o oncologista William Dutra, esse dado reforça a necessidade de ampliar o acesso à informação.

“Esses números deixam claro que o problema vai além da biologia. É fundamental ampliar o conhecimento da população sobre o câncer, desde a prevenção até a busca por tratamento, para que as pessoas cheguem mais cedo aos serviços de saúde”, destacou ao Revista Cariri.

👩 Mulheres e população parda estão entre os mais afetados
O estudo também aponta que pessoas pardas representam a maior parte das mortes por câncer no estado, correspondendo a quase 67% dos óbitos — percentual superior à participação desse grupo na população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Em relação ao sexo, homens e mulheres apresentam números semelhantes no total de mortes. No entanto, entre pessoas de 30 a 69 anos, as mulheres lideram os óbitos, principalmente em razão do câncer de mama.

Dutra chama atenção para a agressividade de alguns tipos de tumor: “Cânceres que atingem mulheres, como os de mama e de colo do útero, costumam evoluir de forma mais agressiva. Quando o diagnóstico não é feito precocemente, as chances de evolução rápida da doença aumentam”, alertou.

Ele também destacou fatores sociais que influenciam esse cenário: “Muitas mulheres estão em uma fase intensa da vida, conciliando trabalho e responsabilidades familiares, o que pode atrasar a procura por atendimento médico”, completou.

📈 Mortes cresceram quase 20% em oito anos
O número de mortes por câncer no Ceará aumentou 19,8% entre 2016 e 2024, passando de 8.510 para 10.624 óbitos.

Para William Dutra, o crescimento está ligado a desafios estruturais e ao aumento da incidência da doença: “Esse aumento indica que ainda enfrentamos dificuldades na assistência aos pacientes. Muitos chegam às unidades de saúde com a doença em estágio avançado, o que compromete o tratamento”, afirmou.

Ele reforça a necessidade de fortalecer a rede de atendimento: “Precisamos melhorar o acesso aos serviços e garantir diagnósticos mais precoces, para reduzir a mortalidade e aumentar as chances de tratamento eficaz”, pontuou.

🚬 Fatores de risco e tipos mais letais
O boletim aponta que o aumento da mortalidade também está relacionado à maior exposição a fatores de risco, como:

  • tabagismo
  • consumo de álcool
  • obesidade
  • sedentarismo

Entre os tipos de câncer que mais causaram mortes no período analisado estão:

  • câncer de pulmão e brônquios
  • câncer de estômago
  • câncer de mama
  • câncer de próstata
  • câncer de pâncreas

🌍 Tendência de aumento preocupa especialistas
O câncer é uma das principais causas de morte no mundo e deve crescer nas próximas décadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 2050, uma em cada cinco pessoas poderá desenvolver a doença.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima cerca de 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028. No Ceará, a previsão é de mais de 32 mil novos diagnósticos anuais.

🩺 Prevenção ainda é o melhor caminho
Especialistas reforçam que uma parcela significativa dos casos pode ser evitada com medidas simples de prevenção. Entre as principais recomendações estão:

✔️ Manter alimentação equilibrada e praticar atividades físicas
🚭 Evitar o tabagismo, incluindo cigarros eletrônicos
🍷 Reduzir o consumo de álcool
💉 Vacinar-se contra o HPV
🧪 Realizar exames preventivos regularmente

Por Nágela Cosme

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