Tatiana Sampaio, responsável por um estudo que investiga a polilaminina como possível tratamento para lesões na medula espinhal (Foto: Fernando Souza/UFRJ)

A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável por um estudo que investiga a polilaminina como possível tratamento para lesões na medula espinhal, afirmou que fará correções no artigo científico que apresenta os primeiros testes da substância em humanos. Segundo ela, o trabalho passará por revisão geral, ajustes na apresentação dos dados e mudanças na forma como os resultados foram descritos.

De acordo com a cientista, a versão atual do estudo foi publicada como pré-print, ou seja, uma versão preliminar do artigo científico divulgada antes da revisão por outros especialistas. Tatiana afirmou que o texto foi disponibilizado inicialmente apenas para registrar a pesquisa.

“Esse pré-print eu coloquei assim no momento. Eu pensei: ‘isso aí não vai dar ibope, vou deixar lá só para registrar que a gente fez isso em algum momento, por questões de autoria’. Mas ele não estava bem escrito”, afirmou ao g1.

O trabalho foi divulgado em fevereiro de 2024 e reúne cerca de duas décadas de pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo inclui testes realizados em oito pacientes humanos, iniciados em 2018. Antes disso, os pesquisadores já haviam avaliado a substância em experimentos com cães.

A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, molécula presente naturalmente nos tecidos do corpo e responsável por dar suporte às células. A hipótese da pesquisa é que, aplicada na medula lesionada, a substância poderia estimular a regeneração de conexões nervosas.

Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular aguda em 2018 e aplicou polilaminina (Foto: Divulgação/@bfdrummond)

A pesquisa ganhou grande repercussão no início de 2026 após entrevistas concedidas por Tatiana ao lado de Bruno Drummond, um dos participantes do estudo que voltou a andar após sofrer uma lesão medular. A divulgação despertou interesse nas redes sociais, mas também levou especialistas a apontar questionamentos sobre dados e interpretação dos resultados apresentados.

Um dos pontos criticados envolve um gráfico do estudo que indicava evolução de um paciente que havia morrido poucos dias após o procedimento. Tatiana reconheceu que houve um erro na identificação dos dados.

“Foi um erro de digitação, isso está errado”, disse a pesquisadora, acrescentando que as informações pertenciam, na verdade, a outro participante do estudo.

Gráfico na pesquisa mostrava que paciente que já estava morto, melhorava 400 dias depois (Foto: Reprodução)

A cientista também afirmou que fará ajustes na forma de apresentação de alguns exames, como a eletromiografia, utilizada para avaliar a atividade elétrica dos músculos e dos nervos. Segundo ela, uma das imagens presentes no artigo mostrava dados brutos e será substituída.

“Não tem nenhum dado novo, tá? Então é exatamente a mesma coisa. Só que dito de uma maneira melhor e com figuras um pouco mais cuidadas”, explicou.

Além disso, o novo texto deverá incluir uma análise separando os pacientes por tipo de lesão medular. De acordo com Tatiana, entre quatro participantes com lesões torácicas houve evolução do grau A para o grau C na escala internacional de avaliação de lesões da medula.

A pesquisadora afirmou que a principal mudança será na forma de apresentação do conteúdo.

“Olha, a mudança principal eu acho que é a forma de escrever. Você vai escrevendo e vai vendo. Tem trechos que eu estou explicando mal e aí posso explicar melhor, mas não tem diferença”, declarou.

Tatiana também disse que as alterações não modificam os dados nem as conclusões do estudo, que continuam apontando potencial terapêutico da polilaminina.

O artigo já foi submetido a duas revistas científicas internacionais, mas acabou rejeitado. Segundo a pesquisadora, uma nova versão está sendo preparada para nova tentativa de publicação e não será divulgada publicamente antes da avaliação por um periódico científico.

Apesar do interesse gerado pela pesquisa — que já recebeu investimento de cerca de R$ 100 milhões do laboratório Cristália para desenvolvimento de um possível medicamento — especialistas afirmam que a eficácia e a segurança do tratamento ainda precisam ser comprovadas em estudos clínicos maiores.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou no início deste ano a realização de ensaios clínicos regulatórios em humanos, etapa necessária para avaliar a segurança da substância. No entanto, esses testes ainda não começaram.

Enquanto isso, a repercussão do estudo mobilizou pacientes com lesão medular e familiares, que passaram a buscar acesso à substância por meio da Justiça. Segundo o laboratório responsável pelo desenvolvimento do medicamento, cerca de 40 ações judiciais já foram registradas, e algumas aplicações ocorreram por decisão judicial, fora de ensaios clínicos formais.

Especialistas ressaltam que, para confirmar se a polilaminina pode se tornar um tratamento eficaz, ainda serão necessários estudos mais amplos, com grupos de comparação e acompanhamento rigoroso dos resultados.

Por Nicolas Uchoa

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